Ponto a Ponto

20 de junho de 2026 · 5 min de leitura

Estamos involuindo: o que pais superprotetores têm a ver com isso

Saiu a confirmação de que o QI médio está caindo nos países mais desenvolvidos. O detalhe que ninguém comenta é que a queda é ambiental, não genética. E parte dela pode estar na forma como a gente protege os filhos de toda dificuldade.

por Eder Miranda

Jovem tenista de costas carregando a própria mochila ao sair de uma quadra de saibro ao entardecer, sozinho, arquibancada vazia e desfocada ao fundo.

Essa semana eu li uma reportagem que me deixou com a pulga atrás da orelha o fim de semana inteiro.

A manchete dizia, em poucas palavras, que a humanidade está involuindo. Não é meme de internet nem velho reclamando das novas gerações. É ciência de verdade, com dado de registro militar e revista científica séria.

Durante quase todo o século passado o QI médio das pessoas subiu. Subiu tanto e tão certinho que ganhou nome: efeito Flynn, mais ou menos três pontos por década, geração após geração ficando mais capaz de raciocinar de forma abstrata.

Só que por volta dos anos 90 isso virou. Na Noruega, na Dinamarca, na Finlândia, no Reino Unido, nos Estados Unidos, justamente nos países mais ricos e mais escolarizados do planeta, o QI médio parou de subir e começou a cair. Um estudo alemão recente mediu queda de quase cinco pontos por década no raciocínio. É o que se convencionou chamar de efeito Flynn reverso.

E aí vem a parte que me fez parar.

A primeira explicação seria genética. A ciência matou ela.

O reflexo é dizer que a culpa é da genética, ou da imigração, ou de gente diferente entrando na conta. Pesquisadores noruegueses foram atrás disso de um jeito que não dá pra contestar: em vez de comparar gerações inteiras, eles compararam irmãos. Mesma família, mesmo pai, mesma mãe, mesma casa.

E o irmão mais novo, nascido depois, pontuava menos que o irmão mais velho. Dentro da mesma família. É o achado central do estudo de Bratsberg e Rogeberg, publicado na PNAS.

Isso fecha a porta da genética. Se fosse gene, irmão de pai e mãe iguais não cairia assim. O que sobra é uma palavra só: ambiente. Alguma coisa mudou no jeito como as crianças estão crescendo. E mudou rápido, em poucos anos, dentro da mesma casa.

A resposta fácil é o celular, a tela, o vídeo curto que entrega tudo mastigado. E tem isso, claro. Mas tem uma coisa mais silenciosa que eu acho que a gente evita olhar, porque ela bate perto demais.

A gente parou de deixar a criança passar dificuldade.

O psicólogo Jonathan Haidt tem uma tese que dá nome a isso. Ele chama de superproteção, de cultura da segurança a qualquer custo, da ideia de que o trabalho do pai é tirar todo obstáculo da frente do filho antes que ele tropece.

E ele usa uma palavra que mudou a forma como eu enxergo a criação: as crianças são antifrágeis. Não são frágeis, que quebram com qualquer esforço. Não são só resistentes, que apenas aguentam. São antifrágeis, igual músculo, igual sistema imune: elas precisam do estresse na dose certa pra ficarem fortes. Tira o esforço e o sistema não fica parado. Ele atrofia. É a tese central de A Transformação da Mente Moderna, de Haidt e Lukianoff.

Uma criança criada na bolha, sem nunca carregar peso, sem nunca perder feio, sem nunca resolver o problema dela sozinha, não continua a mesma. Ela fica mais fraca. E talvez seja disso, somado a tudo o mais, que aquele gráfico de QI esteja falando.

E aqui o assunto vira sobre nós, pais de atleta.

Porque o tênis é um dos últimos lugares do mundo onde a criança é obrigada a passar dificuldade sozinha.

Não tem substituição. Não tem time pra se esconder atrás. Não tem técnico na cadeira mandando o que fazer. Cada erro é só dela, na frente de todo mundo, e ela tem que se virar com o que tem na cabeça naquele segundo. É quase uma academia de estresse na medida exata que o Haidt descreve.

E o que a gente, na melhor das intenções, fica tentado a fazer? Carregar a mochila. Discutir com o árbitro pra poupar o filho. Encordoar a raquete, marcar a quadra, achar o culpado na chave, no piso, no técnico, no adversário que jogou sujo. A gente passa a competição inteira tentando remover a dificuldade. Justamente a dificuldade que constrói o cérebro que a gente diz querer pro nosso filho.

Eu não estou apontando pro pai do lado. Eu fiz isso. A vontade de proteger é amor puro, não tem nada de errado na origem. O problema é que proteger e desenvolver, em muitos momentos, puxam pra lados opostos. Cada dificuldade que eu resolvo no lugar do meu filho é uma repetição que ele deixa de fazer.

O contrário de superproteger não é abandonar.

Não é largar a criança à própria sorte e dizer que é pra fortalecer. Isso é outro erro, do lado oposto.

É deixar o esforço acontecer e estar inteiro pra parte de depois. Deixar perder. Deixar carregar a própria mochila. Deixar conversar com o técnico sem eu traduzir. Deixar sentar com a frustração por alguns minutos sem eu correr pra apagar o incêndio. A força não nasce na hora em que ele ganha. Ela nasce naquele vão entre cair e levantar, no instante em que eu seguro a vontade de preencher esse vão por ele.

O ponto que fica

Talvez a humanidade não esteja ficando mais burra por causa de um vilão só. Talvez seja a soma de mil pequenos confortos, cada geração entregando pra próxima um pouco menos de atrito pra crescer contra.

A quadra de tênis não vai consertar o mundo. Mas ela é um dos poucos lugares que sobraram onde o meu filho ainda precisa encarar uma coisa difícil sozinho. E o meu trabalho ali não é tirar a parte difícil. É garantir que, aconteça o que acontecer lá dentro, o amor no carro na volta pra casa não dependa do resultado.

Esse é o atrito que fortalece sem machucar. O resto, deixa a criança sentir.

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