27 de junho de 2026 · 6 min de leitura
Troféu de participação: a ciência do elogio que enfraquece
A indústria de troféus e medalhas movimenta três bilhões de dólares por ano, e boa parte é prêmio de participação. A ciência do elogio mostra que esse presente, dado pra criança não sentir a dor de perder, pode estar fazendo exatamente o contrário do que a gente espera.
por Eder Miranda
Essa semana eu esbarrei num número que não saiu mais da minha cabeça.
A indústria de troféus e medalhas movimenta cerca de três bilhões de dólares por ano só nos Estados Unidos e no Canadá. E a parte que me fez parar não é o tamanho do número. É a composição dele. Boa parte desses troféus não vai pra mão de campeão nenhum. É troféu de participação, aquela medalha que toda criança leva pra casa só por ter aparecido.
Quem puxou esse fio primeiro foi a jornalista Ashley Merryman, num texto que ficou famoso e tem um título que parece provocação, mas é ciência: perder faz bem pra você.
A ideia por trás do troféu pra todo mundo é generosa. Ninguém quer ver criança voltando pra casa de mãos vazias e chorando. Então a gente nivela: todo mundo ganha alguma coisa, todo mundo é especial, ninguém perde de verdade. O problema é o que a ciência foi descobrir quando olhou pra dentro dessa generosidade.
O elogio que parece combustível e é freio
Carol Dweck, psicóloga de Stanford, fez um dos estudos mais replicados da área. Pegou crianças, deu uma prova, e dividiu o elogio em dois tipos. Pra um grupo: você é muito inteligente. Pro outro: você se esforçou muito. Só isso, uma frase de diferença.
Depois ofereceu a elas uma escolha: um desafio mais difícil, em que iam aprender, ou um mais fácil, em que iam acertar. As crianças elogiadas pelo esforço escolheram o difícil. As elogiadas pela inteligência fugiram pro fácil. E quando vinha o erro, essas últimas desistiam mais rápido, rendiam menos e se divertiam menos. É o achado central de Mueller e Dweck, publicado em 1998.
A leitura é incômoda. O elogio que parece encher a criança de confiança ensina ela, na verdade, a proteger uma imagem. Se eu sou o inteligente, o pior que pode me acontecer é tentar o difícil e descobrir que não sou. Então eu evito o difícil. O troféu que diz você é especial faz a mesma coisa: vira uma coisa a defender, não um lugar de onde arriscar.
E aqui o tiro sai pela culatra de vez
Tem um pesquisador holandês, Eddie Brummelman, que foi atrás da pergunta seguinte: e a autoestima? A gente enche a criança de elogio e troféu justamente pra ela se sentir forte por dentro. Será que funciona?
Num estudo publicado na PNAS, ele mostrou que pais que supervalorizam o filho, que acham ele mais especial e mais merecedor que as outras crianças, elogiam cerca de sessenta por cento mais. E que essa supervalorização não prevê autoconfiança saudável. Prevê narcisismo. É o que descreve Origins of narcissism in children.
Em outro trabalho ele foi mais fundo. O elogio inflado, do tipo isso não está só bonito, está incrivelmente bonito, aplicado em crianças com autoestima mais baixa, fazia elas evitarem o próximo desafio com medo de não repetir o espetáculo. E, ao longo do tempo, previa autoestima menor, não maior. O elogio que era pra levantar afundava.
Junta as duas pontas e dá um nó. A gente dá o troféu pra criança não sentir a dor de perder e pra ela se sentir forte. E a ciência diz que, na dose errada, o troféu faz ela fugir do difícil e se sentir mais frágil. O presente vira armadilha.
A superproteção virada objeto
Quem acompanha já viu pra onde isso vai. Em outro texto eu escrevi sobre a tese do psicólogo Jonathan Haidt, de que as crianças são antifrágeis, que precisam de uma dose de dificuldade pra ficar fortes, e que a superproteção atrofia isso.
O troféu de participação é essa superproteção virada objeto. É a dificuldade removida e embrulhada em plástico dourado. A gente pega a derrota, que tinha uma informação valiosa dentro, e troca por uma medalha que diz pra criança que não aconteceu nada.
E é por isso que o esporte é tão cruel e tão bom
Porque o esporte de verdade não dá medalha de participação.
Seu filho pode deixar a vida dele numa partida, correr atrás de cada bola, nadar até não sentir mais o braço, lutar os seis minutos inteiros, e mesmo assim perder. E sair de lá com nada. Sem troféu, sem pódio, sem consolo institucional. Só o placar e a caminhada comprida até o carro. O esporte levado a sério é um dos últimos lugares onde a recompensa é conquistada, nunca distribuída.
E a tentação, pra mim como pai, é virar a fábrica de troféu particular dele. Você jogou super bem quando ele não jogou. O juiz te prejudicou quando não prejudicou. Comprar o sorvete pra transformar a derrota numa festinha, pra ele não sentir. Cada uma dessas frases é uma medalha de participação que eu entrego com a boca. E cada vez que eu apago a derrota, eu tiro dele a única coisa que ela tinha pra dar: a descoberta de que dá pra perder, sobreviver e voltar na semana seguinte.
O contrário disso não é esfregar a derrota na cara
Não é dizer você perdeu porque não treina, não é cara fechada no carro, não é punição. Isso é o erro do outro lado, e esse machuca de verdade.
É nomear o que aconteceu sem maquiar, com colo do lado. Você perdeu hoje. Doeu, eu vi. Amanhã a gente treina o que faltou. A derrota nomeada com afeto constrói. A derrota apagada com troféu anestesia. Parece a mesma cena, um pai consolando um filho, mas uma entrega a realidade junto com o abraço e a outra esconde a realidade embaixo dele.
O ponto que fica
Talvez a autoestima de verdade não venha do troféu que a gente dá. Venha do troféu que ele descobre que é capaz de conquistar sozinho, e da certeza de que, no dia em que não conquistar, o amor no carro na volta pra casa continua exatamente o mesmo.
O resto é plástico dourado. E criança sabe, lá no fundo, a diferença entre o que ela ganhou e o que ela conquistou.
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